Um livro inclassificável,
uma brincadeira delirante,
um atentado à seriedade dos leitores.
Os irmãos Grim – gémeos, na realidade – terão sido dois tipos que passaram pelo Chile e pelo Uruguai sem que deles restasse mais do que retalhos aleatórios das suas vidas e obras, num todo confuso e até boateiro, que os reduziu aos seus piores contos. Por sorte para os amantes das sagas “gauchescas” e da poesia a cavalo, Luis Sepúlveda e Mario Delgado Aparaín conseguiram – com a inestimável colaboração dos Professores Orson C. Castellanos, Segismundo Ramiro von Klatsch e José Sarajevo – assinar a tempo esta crónica temporal que retrata as misteriosas origens e a efémera passagem pelas terras do Sul do mundo dos gémeos Grim, trovadores crioulos, músicos iconoclastas, poetas autodidactas e cantores de uma realidade que, devido à escassa transcendência do seu legado, continua hoje a ser um mistério que subjuga os viajantes.
Trata-se, pois, de uma obra séria – tão séria que, assim esperam os seus autores, só pode levar o infeliz leitor a desfazer-se às gargalhadas. Eu diria que este livro é uma pequena pérola repleto de ironia e de um humor nonsense...
E o que é mais interessante baseado em factos verídicos - por incrível que possa parecer a quem ler o livro.
Segundo os autores “Os Piores Contos dos Irmãos Grim”, escrito em parceria por Sepúlveda e Aparaín, surgiu depois do autor chileno ter visto uma notícia do início do século XIX sobre dois “payadores” (pessoas que pagavam com cantigas a comida e o alojamento) que tinham sido apupados por uma plateia em fúria numa festa numa fazenda na ponta sul do Chile - até objectos lhes atiraram. Curioso com a história destes irmãos (os tais Grim), Sepúlveda prosseguiu a pesquisa e descobriu que eles embarcaram para o Uruguai, ali mesmo ao lado. Coube então a Aparaín a tarefa de detective e este descobriu, em jornais uruguaios da década de 20, que os dois irmãos se mantiveram activos e com o mesmo resultado: apupos e lançamento de objectos para o palco.
E nada mais se soube deles!
Sepúlveda e Aparaín viram aqui o ponto de partida para concretizar um projecto antigo, um livro escrito a meias. E o resultado é “algo completamente diferente”. Um romance epistolar sobre a vida (imaginada) dos dois irmãos Grim, curiosamente chamados Abel e Caim.
A pretexto dos irmãos Grim muitas histórias são contadas, umas baseadas em factos reais outras pura imaginação dos autores, invariavelmente todas muito divertidas.
Neste romance, assente numa troca de correspondência entre dois estudiosos dos Grim, os professores Segismundo Ramiro von Klatsch, da Patagónia, e Orson C. Castellanos, do Uruguai, cabe todo o tipo de personagens, a maior parte delas inspiradas em figuras reais. Afinal, basta atentar nos seus nomes: Miguel Strogoff, Humberto de las Mercedes Bogart, Juanito Weissmuller, Carloto Heston, Genaro Kelly, Pancho Lancaster, George Bushtamante, entre outros...
Cheio de ritmo, este livro lê-se com imenso prazer, não só pelas gargalhadas que pode proporcionar, mas também pelo gosto de se descobrir a realidade travestida pela ironia implacável de Sepúlveda e Aparaín, que assim conseguem fazer uma implacável crítica social e política que atravessa todo o século XX e entra já no XXI.
“Os Piores Contos dos Irmãos Grim” é um livro muito divertido, mas que pode e deve ser levado a sério. A denúncia, a crítica, a acusação estão presentes, lado a lado com o agradecimento e a homenagem. Tudo muito bem misturado e ainda melhor servido.