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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

Como fã dos livros dele (mas não da pessoa) doi-me um pouco dar a noticia do falecimento de José Saramago.


José Saramago morreu hoje, em casa, ao meio dia e quarenta e cinco, aos 87 anos, em Lanzarote, vítima de cancro. O escritor deixa uma obra vastíssima, pela qual venceu o Nobel da Literatura em 1998...

Nascido em 1922, na azinhaga, uma pequena aldeia no concelho da Golegã, Saramago cresceu em Lisboa, cidade para onde a família se mudou ainda nos anos 20. Uma vez que a família não tinha muitos recursos, não pode frequentar a Universidade. O que não o impediu de ir regularmente à biblioteca do Palácio Galveias requisitar livros, pelos quais era apaixonado.

Publicou, em 1947, aos 25 anos, Terra do Pecado, o seu primeiro romance, mas não adquire logo o reconhecimento, pelo que trabalha como tradutor e na Editorial Estudos da Cor para aumentar os seus rendimentos. Continua a escrever e aventura-se na poesia, lançando Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria e O Ano de 1993 (1975). Entretanto, começa a trabalhar do Diário de Notícias, mudando-se depois para o Diário de Lisboa. Retorna em 75 ao Diário de Notícias, como director-adjunto, mas por altura do 25 de Novembro é demitido. É então que abandona o jornalismo para se dedicar inteiramente à Literatura.

Em 1977 retorna, então, ao romance, com Manual de Pintura e Caligrafia mas é em 1980 com Levantado do Chão, que atinge o reconhecimento. Em 1982 publica Memorial de Convento, criando a personagem Blimunda e atraindo, definitivamente, a atenção de todos. Apesar da idade, nunca mais parou de trabalhar e de escrever. Seguiram-se-lhe O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Quatro anos mais tarde é a vez de publicar Ensaio Sobre a Cegueira (1995), depois Todos os Nomes (1997), A Caverna (2001), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a Lucidez (2004), As Intermitências da Morte (2005), A Viagem do Elefante (2008) e, por último, Caim (2009).

Em 1995 José Saramago foi distinguido com o Prémio Camões, o mais importante Prémio Literário da Língua Portuguesa e, em 1998, ganhou o Nobel da Literatura, sendo o único escritor português a ter vencido este prémio.

Sempre teve crenças fortes ao longo da vida, e por isso foram muitas as polémicas em que se viu inserido: muito crítico relativamente a Israel, sempre defendeu o povo Palestiniano, sendo por vezes acusado de anti-semitismo; defendeu que Portugal teria a ganhar se fosse integrado em Espanha país onde, aliás, se exilou, para viver em Lanzarote com a sua mulher, a jornalista e escritora espanhola Pilar del Rio; criticou o Papa bento XVI, tecendo, várias vezes, fortes críticas à Igreja. Com a publicação do seu último romance, Caim, em 2009, voltou a acender esta polémica já antiga, o que era, aliás, sua intenção, como declarou em várias entrevistas. Não é de estranhar: José Saramago sempre lutou, ao longo da sua vida, pela liberdade de expressão.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Nenhum Olhar de José Luís Peixoto

Li este livro pela primeira vez na altura em que ganhou o Prémio Literário José Saramago (2001). Confesso que o comprei por causa da politica do circulo de leitores (tem de comprar pelo menos um livro por revista no primeiro ano) não conhecia o autor e não havia mais nada naquela revista que me agradasse.
E apaixonei-me pela escrita deste ainda jovem escritor ( nasceu a 4 de Setembro de 1974).
José Luís Peixoto tornou-se um nome incontornável da literatura nacional nos últimos anos. E já é um autor reconhecido internacionalmente (este "Nenhum Olhar" fez parte da lista do Financial Times dos melhores livros publicados em Inglaterra em 2007); Em 2008, após a edição de «Nenhum Olhar» nos Estados Unidos (sob o título «The Implacable Order of Things», este romance foi integrado na selecção semestral "Discover Great New Writers" das livrarias Barnes & Noble, sendo o único romance em língua estrangeira a fazer parte dessa lista, o que lhe facultou uma exposição excepcional na maior cadeia de livrarias dos Estados Unidos e do mundo.
Os seus romances estão publicados em França, Itália, Bulgária, Turquia, Finlândia, Holanda, Espanha, República Checa, Roménia, Croácia, Bielorússia, Polónia, Brasil, Grécia, Reino Unido, Estados Unidos, Hungria, Israel estando traduzidos num total de 18 idiomas e sendo distribuídos em mais de 40 países. Os seus romances são publicados em algumas das editoras mais prestigiadas do mundo, como é o caso da Bloomsbury (Reino Unido), Doubleday/Random House (Estados Unidos), Grasset e Folio/Gallimard (França), Einaudi (Itália), entre outras...

Da sua já vasta obra fazem parte:
Ficção
2000 - Morreste-me
2000 - Nenhum Olhar (Prémio Literário José Saramago)
2002 - Uma Casa na Escuridão
2003 - Antídoto
2006 - Minto Até ao Dizer que Minto
2006 - Cemitério de Pianos (Prémio Cálamo - Otra Mirada, atribuído ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha em 2007)
2007 - Hoje Não
2007 - Cal
Poesia
2001 - A Criança em Ruínas
2002 - A Casa, a Escuridão.
2008 - Gaveta de papéis
Obras de teatro
2006 - Anathema Estreada no Theatre de la Bastille em Paris.
2007 - À Manhã Estreada no Teatro São Luiz em Lisboa.
2007 - Quando o Inverno Chegar Estreada no Teatro São Luiz em Lisboa.
Textos para músicas
2008 - O Velório de Cláudio ou a Representação Bufa de Personagens Históricas
2008 - Orfeu ed Eurídice (uma adaptação)[4]
Escreveu textos para os grupos A Naifa, Da Weasel, Quinta do Bill, Mísia, Joana Amendoeira.

Sobre este livro:

Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana, o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro, os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona, ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face às dificuldades. «... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final ...»

O que mais me agrada na escrita deste jovem escritor (sim porque ele só é um ano mais velho do que eu portanto um jovem), o que mais me agrada na escrita dele é o dom que ele tem de escrever prosa como quem escreve poesia.

“Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.”
Deixa-me descansar... Deixa-me adormecer sem temer encontrar-te! E o mundo acabou. Inexplicavelmente, ou sem uma explicação que possa ser dita e entendida. O mundo acabou, como num instante em que se fechassem os olhos e não se visse sequer o que se vê com os olhos fechados. (...). O mundo acabou e nem o tempo prosseguiu. Os minutos não passavam porque não existiam, como não existiam os momentos ou os olhares. O infinito era o infinito de não ser nem infinito, nem nada. A morte não existia no meio de todas as coisas mortas. Não existiam os cadáveres. Tinha morrido a memória da morte. (...). O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.

Talvez e sem exagero um dos melhores romances portugueses dos últimos anos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

FABLES - FÁBULAS LENDAS NO EXILIO de Bill Willingham (texto) e MARK BUCKINGHAM e Lan Medina (desenhos)

Hoje vou fugir ao género habitual das postagens neste blog e vou falar de uma série de banda desenhada. É verdade banda desenhada...

Quem primeiro me falou nesta série foi o César (o nosso "especialista" em BD e fantástico)... Ele descobriu esta série através de familiares que vivem nos EUA. E sim para completar a colecção recorremos ao já tradicional método de sacar versões scaneadas na net... Porque e isso posso garantir, a série é simplesmente fantástica...

Falo-vos da série FABLES - FÁBULAS LENDAS NO EXILIO do escritor Bill Willingham e dos desenhistas Lan Medina e Mark Buckingham:




Uma das coisas que mais me agradou nesta série (mais do que as histórias em si [excelentes]e mais do que a [magnifica] arte) foi o conceito por trás de toda a série:

O que aconteceria se todas as personagens dos tradicionais contos de fada afinal existissem, e tivessem sido forçadas a abandonar a Terra da fantasia, para viver no nosso mundo? O que poderiam a Branca de Neve, o Lobo Mau, o Príncipe Encantado e o Barba-Azul fazer para sobreviver na nossa realidade? Pois bem, preparem-se para descobrir toda a verdade sobre a Comunidade das Fadas e das Fábulas, as personagens “supostamente” imaginárias, que se mudaram de armas e bagagem para Nova Iorque, onde vivem disfarçadamente e dissimuladamente entre os mortais mundanos. E tudo começa quando Branca de Neve, directora assistente do Rei da Comunidade das Fábulas é alertada para o facto de que a sua irmã talvez tenha sido assassinada. E quem melhor do que o Lobo Mau, o Xerife da Comunidade, para investigar!

É verdade que a série acaba com alguns velhos e adorados mitos (o viveram felizes para sempre é treta com apenas uma excepção: a Bela e o Monstro), a linguagem do Pinóquio por vezes deixa um pouco a desejar... Achei piada ao facto do Príncipe Encantado das histórias da Branca de Neve, Bela Adormecida e Cinderela ser o mesmo (e de se ter divorciado delas todas...) e há algo de arrepiante na bruxa de Hansel e Gretel - que como disse e bem há uns anos um amigo (e irmão de um dos colaboradores deste blog) é a personagem mais mal interpretada das histórias de encantar - então a senhora constroi uma casa de sonho e chegam dois putos ranhosos e começam a come-la (à casa não a bruxa) e ela não tem o direito de se vingar????

Enfim, se tem saudades das personagens dos contos de fadas e não se importam de os ver como nunca viram não percam esta excelente série....

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Lançamento do livro «O Romance da Bíblia» de Deana Barroqueiro

Não tenho tido muito tempo para ver os mails e por isso só hoje é que vi este mail que me enviaram.
A apresentação do livro é hoje (ainda fui a tempo) apareçam e deem o vosso apoio a uma grande escritora. (isto sou eu a dar graxa)...


Caros amigos e amigas

Venho dar-vos notícias do lançamento da minha mais recente obra histórica, O Romance da Bíblia, livro muito diferente de todos os outros. Pode ser uma surpresa, conhecer a minha faceta de escrita erótica.
Fico-vos grata, se anunciarem nos vossos blogues, pois tive grande azar com a marcação do lançamento na Buchholz que mo cancelou por duas vezes, substituindo-os por outros mais mediáticos. O Centro Nacional de Cultura salvou-nos, oferecendo-nos a sua casa para o evento.


C O N V I T E

A Ésquilo – edições e multimédia e o Centro Nacional de Cultura têm o prazer de convidar V. Exa. para o lançamento de O Romance da Bíblia – Uma Visão feminina do Antigo Testamento, de Deana Barroqueiro, que terá lugar no próximo dia 20 de Maio, quinta-feira, às 18.30 horas, no Centro Nacional de Cultura, sito no Largo do Picadeiro, nº 10 – 1º andar, em Lisboa.
Como escreve Maria Teresa Horta, no Prefácio deste livro, a odisseia das mulheres e homens do Antigo Testamento é minuciosamente recriada com «uma escrita toda ela tecida por sensualidades e cintilações audaciosamente irónicas».
A apresentação estará a cargo da Doutora Manuela Gamboa, professora de literatura e investigadora.



O Romance da Bíblia

Um olhar feminino do Antigo Testamento
«O Romance da Bíblia possui o riso que acontece debaixo da palma da mão entreaberta sobre a boca, mas igualmente o desfrute do gozo, ambiguamente trocado, tomado, pelo gosto do outro, no tactear da língua. Um livro de memórias ancestrais, que nos mostra o despertar da mortal e venenosa serpente das seitas religiosas, do obscurantismo, do sexismo com a sua rancorosa face. Mas, O Romance da Bíblia é ainda a beleza traba­lhada, cinzelada, com um bom gosto literário inusitado, eu diria mesmo raro, na ficção portuguesa. (…)


O livro de Deana Barroqueiro traz consigo a visão da mulher. Lúcido olhar, que ao longo dos séculos tem faltado à visitação deste universo da Bíblia: Velho Testamento moralista, repleto de anciãos preguiçosos, libidinosos e lascivos, de brutamontes ignorantes e violadores, convocados por um Deus irado frente à própria incompetência e à própria ima­gem, segundo a qual teria criado o homem, de quem afinal não gosta e castiga. E é precisamente no enredamento deste dilema, que se abrem as páginas do primeiro dos dezanove textos que, fragmentariamente, irão formar um todo literário uno: falando de Noé e de Jacob, de Isaac e de Sansão, de Asmodeu e dos circuncisos, de Labão e de Abraão, arrancando-os do seu pedestal de heróis divinos, com uma habilidosa cruel­­dade implacável.»

Maria Teresa Horta
Crítica Literária

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Conheça a página de Deana Barroqueiro em: http://deanabarroqueiro.blogspot.com
e o blogue: http://conversacomleitores.blogspot.com/

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Nasceu em New Haven, Connecticut, nos Estados Unidos da América, em 23 de Julho de 1945. Atribui à sua ascendência murtoseira e lisboeta, as­sim como à longa viagem de transatlântico, de New York para Lisboa, que fez aos dois anos de idade, a génese da sua paixão pela grande aventura dos Descobrimentos Portugueses e seus protagonistas.
Licenciou-se em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa e fez-se Professora de Francês e Português por vocação, efectivando-se na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, onde fez o estágio e concretizou a maioria dos seus projectos de Teatro e de Escrita Criativa com os alunos. Publicou várias colectâneas de contos e peças de teatro com o Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto de Inovação Educacional.
Dotada de uma invulgar capacidade de comunicação, é frequentemente solicitada para palestras e conversas com os leitores, em escolas e outros espaços culturais, sobre a época dos Descobrimentos, a Cultura e História Portuguesas, em particular, do século XV ao XVII, que estuda há quase três décadas.
Em Novembro de 2003, nos Estados Unidos da América, durante o sarau para atribuição de prémios do Concurso Literário Proverbo, de cujo júri fez parte, a escritora recebeu um louvor pela Câmara de Newark, em reconhecimento do seu contributo para a divulgação e promoção da língua e cultura portuguesas entre as comunidades de emigrantes da América, Canadá e Europa.
Publicou nove romances históricos e dois livros de contos, um dos quais traduzido e editado em Espanha, Itália e Brasil. O seu romance D. Sebastião e o Vidente, que a Porto Editora escolheu para se lançar na área da ficção, foi agraciado com o Prémio Máxima de Literatura 2007 – Prémio Especial do Júri.
Em 2009, a Ésquilo publicou de sua autoria O Espião de D. João II, romance histórico dedicado à missão secreta de Pêro da Covilhã.

http://deanabarroqueiro.blogspot.com


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ISBN: 978-989-8092-74-8
Páginas: 352
Formato: 16x23 cm
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terça-feira, 18 de maio de 2010

Um acontecimento na ponte de Owl Creek Ambrose Bierce

A história de um homem prestes a ser enforcado durante a guerra civil americana, os seus últimos momentos e a sua vontade de continuar a viver. Uma história capaz de surpreender muita gente...
A primeira vez que ouvi falar no conto que dá o titulo a esta obra foi no delicioso "Cartas a um Jovem Romancista" do Mário Vargas Llosa, e era utilizado para explicar os diferentes tipos de tempos da narrativa.
Mas este conto e os outros que constituem este pequeno livro são deliciosos e merecem uma leitura atenta, não apenas pelos fãs dos contos góticos e de horror, mas por todos.

Ambrose Bierce nasceu no Ohio em 1842. Alistou-se, aos dezanove anos, no exército americano durante a guerra civil. A guerra, as tácticas militares, o convívio com a morte, o companheirismo deram-lhe material suficiente com que veio a encher os seus contos, considerados por muitos críticos do melhor que se escreveu na literatura americana sobre essas realidades.
Tornou-se jornalista, como editor do «San Francisco News-Letter» e do «California Advertiser». Assinou durante anos uma coluna que lhe deu fama e projecção. Cultivou o aforismo, a fábula, a «ghost-story» e o epigrama. Toma maior contacto com a obra de Mark Twain, Swift, Voltaire e Pope, que lhe abrem os caminhos da ironia e da Sátira.
A par destes traços característicos da sua prosa, Bierce enriquece a tradição gótica com o aprofundamento psicológico do horror e do estranho. Criou uma enorme comunidade de admiradores que persiste até aos dias de hoje. Com 71 anos desapareceu no México sem deixar rasto. Supõe-se que tenha morrido a 11 de Janeiro de 1914, na batalha de Ojinaga.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Berlim Alexanderplatz Alfred Döblin

Berlim, década de 1920. Um cidadão, após cumprir pena durante quatro anos por assassinato, vê-se livre para começar uma nova vida. No entanto, a única convicção que Franz Biberkopf - personagem central desta obra - tem é a de tornar-se e manter-se decente. No início, guiado por esse forte sentimento, ele consegue andar no caminho do bem - até que algo acontece, ele não sabe dizer o quê, e a sua vida acaba seguindo um rumo diferente, mais adverso.
Uma obra em que a expressão do sentimento tem mais valor do que a razão. E o sentimento da época era o de uma nação derrotada e humilhada, o que contribuiu para que Alfred Döblin desse voz a esse desafortunado personagem.
Berlin Alexanderplatz é dividido em nove “livros” que descortinam a história do pobre Franz, da cadeia ao sanatório. Transitando por uma Berlim coalhada de proletários e malandros, o grandalhão Franz trabalha como operário e com o transporte de móveis, perambula pelas ruas, vende jornais, explora mulheres, bebe em quantidades industriais. E a cidade que Döblin vai descrevendo é ela mesmo e a par de Franz protagonista da história. Revelada sob muitos e diferentes aspectos a voz dos narradores a manchetes de jornais, placas, anúncios, canções populares…

Berlim Alexanderplatz, a obra-prima de Alfred Döblin, é porventura o mais importante contributo alemão para o «romance da grande cidade», palco das vivências típicas das sociedades industrializadas do século XX. E é, além disso, uma referência fundamental para os admiradores do romance modernista, situando-se ao nível de um Manhattan Transfer, de John dos Passos, ou de um Ulisses de James Joyce.

O romance foi adaptado duas vezes ao cinema, em 1931 e de novo em 1980, por Rainer Fassbinder.

Berlim Alexanderplatz aparece em inúmeras listas como um dos 100 livros mais importantes de sempre.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O planalto e estepe Pepetela

Há já alguns meses que queria falar aqui deste livro - desde que o Mário (quem mais?) mo emprestou... era para ter sido a minha primeira postagem neste blogue mas, por um motivo ou por outro fui adiando. Até que há uns dias o encontrei numa livraria, comprei e reli... e tornei a adorar!!!!!!!



Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, (Benguela, 29 de Outubro de 1941) é um escritor angolano. A sua obra reflecte sobre a história contemporânea de Angola, e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a longa guerra, Pepetela, angolano de descendência portuguesa, lutou juntamente com MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) para libertação da sua terra natal. O seu romance, Mayombe, retrata as vidas e os pensamentos de um grupo de guerrilheiros durante aquela guerra. Yaka segue a vida de uma família colonial na cidade de Benguela ao longo de um século, e A Geração da Utopia mostra a desilusão existente em Angola depois da independência. A história angolana antes do colonialismo também faz parte das obras de Pepetela, e pode ser lida em A Gloriosa Família e Lueji. A sua obra nos anos 2000 critica a situação angolana, textos que contam com um estilo satírico incluem a série de romances policiais denominada Jaime Bunda. As suas obras recentes também incluem: Predadores, uma crítica áspera das classes dominantes de Angola, O Quase Fim do Mundo, uma alegoria pós-apocalíptico, e O Planalto e a Estepe, que examina as ligações entre Angola e outros países ex-comunistas. Licenciado em Sociologia, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto em Luanda.

Do encontro entre um estudante angolano e uma jovem mongol, nos anos 60, em Moscovo, nasce um amor proibido.
Baseada em factos verídicos, ficcionados pelo autor, esta história põe em evidência a vacuidade de discursos ideológicos e palavras de ordem, que se revelam sem relação com a prática. Política internacional, guerra, solidariedade e amor, numa rota que liga um ponto perdido de África a outro da Ásia, passando pela Europa e até por Cuba. Uma viagem no tempo e no espaço, o de uma geração cansada de guerra num mundo cada vez mais pequeno. Maravilhoso e comovente, este é um romance sobre o triunfo do amor, contra todas as vontades e todas as fronteiras.

O livro acompanha a vida de Júlio desde a infância na Huíla até aos últimos dias em Luanda. A história atravessa uma infinidade de cenários (Angola, Portugal, Rússia Mongólia, Cuba...) sem nunca perder o ritmo e a beleza... mais do que um romance este livro é um magnifico poema em prosa... (se é que isso existe)

«Os olhos dele continham o céu Planalto.
Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere.
Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da estepe mongol. Tons sobre o castanho.
Entremos primeiro no azul.»







A narrativa, com base em factos verídicos, conta a história de Júlio, um estudante angolano, e de Sarangerel, uma jovem mongol de famílias importantes. Os dois conhecem-se em Moscovo, na Rússia, durante os anos 60, e o seu amor impossível e incompreendido servirá de suporte a toda a história. A conotação política e histórica é igualmente transmitida pelo texto, ao longo dos vários capítulos, ficando patente o vazio dos discursos ideológicos. As personagens aprenderão, na primeira pessoa, que as palavras de ordem não têm, assim, qualquer relação com a vida prática, em particular com o seu drama pessoal. De que podem ser úteis as ideologias quando o indivíduo vê as suas necessidades individuais limitadas por causa dos próprios ideais?

Um livro para ler, reler e guardar para sempre...

terça-feira, 20 de abril de 2010

O Outono em Pequim Boris Vian


Há uns anos li um livro que me fez descobrir este senhor. O livro chamava-se: "A Espuma dos Dias" e logo no prefácio deparei-me com esta pequena pérola: «Só existem duas coisas: o amor de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, porque o resto é feio (...)»
depois li tudo o que consegui encontrar dele (As Formigas, Irei cuspir-vos nos Túmulos,...) mas durante anos faltou-me este excelente "O Outono em Pequim" até agora!!!




Primeiro: não se deixem enganar pelo titulo - a história nem se passa em Pequim nem no Outono...
Segundo: confesso que nem sei bem como definir o estilo deste livro... Faz-me pensar em alguns quadros surrealistas que conheço




"O Outono em Pequim" é uma sequência absolutamente descabida, caótica, aleatória, absurda e genial de acontecimentos, (perdoe-se o uso e abuso dos adjectivos) que têm tanto de surpreendentes como de inconcebíveis, pelo menos até ao ponto em que o próprio Vian decide dar um pouco de coerência ao jorro criativo e escrever uma história. Aliás, quando o autor decide "organizar" a história e dar-lhe uma "sequência lógica", surge um aviso ao leitor, para que este fique devidamente prevenido. Para quem já conhece Vian, tal não é de estranhar. Para quem não conhece, não há nada a temer, o seu mundo absurdo funciona mesmo assim, com uma atitude mista de provocação e ingenuidade. E é claro que a "lógica" e a "coerência" de Vian são ... no mínimo originais e muito próprias...


Ao contrário do que o título possa indicar, esta história não se passa no Outono nem em Pequim, mas no imaginário deserto da Exopotâmia, onde um estranho Sol emite raios negros e um grupo de pessoas bastante original tenta construir uma estação de comboios com vias-férreas que levam a lado nenhum. Num cenário onde reinam o ilógico, o absurdo e o improvável, Vian, misturando um fantástico humor com uma desigual quantidade de náusea, introduz várias personagens excêntricas, tais como os melhores amigos Ana e Ângelo, ambos engenheiros, e Rochela, que se apaixona pelo primeiro, e se torna sua amante, enquanto Ângelo está loucamente apaixonado por ela. Além deste trio, deparamos ainda com o doutor Manjamanga, o arqueólogo Atanágoras Porfirogénito e Pipa, o dono do hotel, entre outros - todos eles num lugar que se assemelha a "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, onde existe um matiz negro e tudo é possível, excepto a felicidade.

e já agora outras citações do senhor:
- O trabalho é o ópio do povo, e eu não quero morrer drogado
- Se nos lembrarmos melhor dos bons momentos, para que servem os maus?

"Levar uma pancada na cabeça não é nada. Ser drogado duas vezes seguidas na mesma noite é desagradável mas vá lá... Mas sair para apanhar ar e acordar num quarto desconhecido com uma mulher, os dois com a roupa de Adão e Eva, isso é que já é um bocado forte de mais." (Morte aos Feios)


Sobre o autor:
Boris Paul Vian (Ville-d'Avray, 10 de Março de 1920 — Paris, 23 de Junho de 1959), foi um engenheiro, escritor, e cantautor francês, identificado com o movimento surrealista e ao anarquismo enquanto filosofia política.
Nascido em Ville-d'Avray, na Ilha-de-França, em 10 de Março de 1920, fez o ensino liceal, em Paris, onde estudou principalmente línguas (latim, grego e alemão). Foi admitido na École Centrale des Arts et Manufactures, em 1939, onde se diplomou em Engenharia Mecânica, em 1942.
Levou sempre uma vida boémia, vindo a construir um percurso multifacetado, da literatura à música. Esteve empregado na firma AFNOR, de onde foi despedido pelos conflitos com os seus superiores, a quem corrigia constantemente erros ortográficos, episódios retratados no romance Vercoquin et le plancton (1947). Antes disso já havia publicado, em 1944 e 1945, sob os pseudónimos Bison Ravi e Hugo Hachebuisson.
Assinou peças de teatro, contos literários, letras musicais e romances, entre os quais se destaca A Espuma dos Dias (1947) considerada por muitos a sua obra-prima. Com uma atitude por vezes surrealista, Vian procurou que a sua escrita transmitisse a capacidade que a língua tem de apresentar um mundo imaginário mais real e revelador do que a rotina da vida normal, diária e banal.
A sua doença obrigou-o a deixar de tocar jazz, depois de ter sido, na década de de 1930, trompetista no Hot Club de França. Os últimos anos da sua vida foram passados na dependência de medicação, vindo a morrer por insuficiência cardíaca, depois de um ataque de coração, ocorrido quando via a adaptação do seu livro Irei Cuspir-vos nos Túmulos, no Cinema Marbeuf.
fonte: Wikipedia

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson

Antes de mais uma confissão sobre este livro: há uns anos atrás, quando estava na faculdade, este livro fazia parte da bibliografia de Literatura Norte-Americana e apesar de ter feito a cadeira com quinze valores nunca peguei neste livro... (é talvez triste dizê-lo mas nunca li tão pouco como quando estava a fazer o curso de línguas e literatura...) e quando um primo resolveu tirar o mesmo curso para desemprego que eu, ofereci-lhe o livro.
Aqui há dias tropecei nele numa livraria e resolvi finalmente lê-lo.

E nem sei bem como defini-lo não é um romance nem tão pouco um conjunto de contos... um conjunto de 21 histórias com dois pontos em comum o narrador (George Willard, um repórter do jornal local a quem os habitantes da povoação confidenciam as suas esperanças, sonhos e medos.) e o cenário: uma pequena cidade Winesburg, Ohio...
Um livro ao mesmo tempo duro e cru e profundo... uma pequena maravilha.

"Winesburg, Ohio" é um vivo retrato de uma pequena povoação da América profunda. O fio condutor da narrativa é o jovem George Willard, um repórter do jornal local a quem os habitantes da povoação confidenciam as suas esperanças, sonhos e medos. Com uma escrita tão depurada como sensível, Anderson mostra-nos a vida íntima de figuras estranhas e comoventes marcadas pelo desassossego e pela solidão. Winesburg, Ohio é considerada uma obra de referência da narrativa norte-americana e o quilómetro zero de onde partem, entre muitos outros, Hemingway, Faulkner, Cheever, Carver e Updike.
«...muito perto da ingenuidade do tradicional contador de histórias: o seu estilo é seco, simples...»
José Riço Direitinho, Público, ípsilon

«...cronista de vidas humildes, mas que ele eleva...a uma singular dignidade.»
José Riço Direitinho, Público, ípsilon

«...obra-prima que entrelaça 21 narrativas curtas...na descrição modernista de um desfile de homens e mulheres saídos de um quotidiano banal, mas emoldurados por uma onírica parábola ao grotesco.»
Filipa Melo, revista LER

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Nostromo de Joseph Conrad


Nostromo (1904) é um romance grandioso.
Situa-se em Costaguana, um local imaginário situado na costa ocidental da América Latina. Simbólico e realista, todo o romance é dominado pela prata da mina de SanTomé e pelas suas consequências nas vidas de um conjunto de personagens. Este tesouro atrai homens gananciosos que impõem ao país uma sucessão de tiranias, e põe à prova e acaba por corromper homens venerados pelos seus elevados princípios morais. Apesar de já ter mais de 100 anos, esta obra revela tanto da América Latina contemporânea como qualquer um dos apurados relatos da turbulenta vida política daquela região. Com uma impressionante narrativa, espectacular na recriação da paisagem subtropical, Nostromo retrata uma sociedade em rebelião, e as oportunidades que as convulsões políticas e sociais oferecem à corrupção reflectem-se em cada página.


Como quase todas as histórias de Conrad sentimo-nos transportados aos locais que descreve como ninguém. E como em quase todas as histórias de Conrad sentimos as dúvidas as angustias e todos os sentimentos dos personagens que ele criou.
Alguém definiu este livro (e outros do autor) como um livro "pessimista". Não consigo concordar considero Conrad um retratista fiel do seu tempo e da alma humana e por mais negros que sejam os cenários que cria ele deixa sempre uma porta aberta para algo melhor (mesmo que por vezes não esteja bem à vista).

«...um portentoso romance político, uma ficção sobre a História enquanto ficção, invenção de sentidos, sobre ilusões individuais, ideológicas e revolucionárias num mundo crescentemente sobredeterminado por poderes económicos supranacionais e, por assim dizer, a-políticos. É um romance sobre o início da globalização imperialista do capitalismo liberal.»
Público, ípsilon online