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quarta-feira, 10 de março de 2010

Incidente em Antares Erico Verissimo

Aproveitando o facto do Mário me ter emprestado os livros do Erico Verissimo venho hoje recomendar-vos este magnifico e delicioso "INCIDENTE EM ANTARES".




Publicado em 1971, Incidente em Antares é o último romance de Érico Veríssimo.
"Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram são designados pelos seus nomes verdadeiros". Essa breve nota inicial já fornece uma idéia do tom irônico que permeia Incidente em Antares. No entanto, a ironia e a sátira não são os únicos elementos presentes na narrativa. Erico Verissimo considera Incidente em Antares uma espécie de estuário em que deságuam rios e riachos de várias de suas tendências e características literárias. Mosaico do universo criativo do autor, a obra ainda inclui uma pitada de fantástico, o que lhe dá um sabor exótico.
Semelhante a outros romances de Verissimo, Incidente em Antares tem um caráter panorâmico, onde uma vasta galeria de personagens vivencia os problemas de nosso tempo num microcosmo criado com visível deleite pelo escritor gaúcho.


Dona Quitéria ergue-se, depois de dar duas palmadinhas consoladoras no ombro do suicida, e diz em voz alta, como quem se dirige a uma assembléia:
- Precisamos fazer alguma coisa!
Cícero Branco congrega os outros seis cadáveres:
- Companheiros, não é por estar morto que vou deixar de ser o que fui em vida: um advogado. Estive arquitetando um plano...
- Fale! - ordena Dona Quitéria.
- Qual é o nosso objetivo? O de sermos sepultados dignamente, como é de nosso direito e de hábito, numa sociedade cristã.
- O doutor falou pouco mas bem! - exclamou Pudim de Cachaça.
- Escutem com a maior atenção. Você aí, Joãozinho, aproxime-se e escute também. A idéia é simples. Amanhã pela manhã marcharemos todos sobre a cidade para protestar...
- Uma greve contra os grevistas! - entusiasma-se Dona Quitéria.
- Se o fim da marcha é esse - intervém Barcelona -, não contem com este defunto.
- Espere - diz o advogado, tocando o braço do sapateiro. - Usemos de todas as nossas armas. Primeiro, a nossa condição de mortos. Sejamos mais vivos que os vivos.
- Como?
- Impondo à população de Antares a nossa presença macabra. Se não nos enterrarem dentro do prazo que vamos impor, empestaremos com a nossa podridão o ar da cidade.
- Que coisa horrorosa, doutor! - diz Erotildes, ajeitando os cabelos num gesto faceiro.
- Por que não se põe em votação a proposta do Dr. Cícero? - pergunta o sapateiro.
- Bom - faz o advogado. - Não direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto é uma... uma tanatocracia. (E os sociólogos do futuro terão de forçosamente reconhecer este novo tipo de regime.) Preciso saber se todos vocês me aceitam como advogado, caso em que terão de me passar uma procuração verbal para eu agir em nome do grupo.
Dona Quitéria sacode a cabeça num movimento afirmativo. Erotildes, Pudim e Menandro a imitam. Barcelona, porém, hesita:
- Primeiro quero conhecer melhor o plano.
- Simples. Descemos juntos pela Rua Voluntários da Pátria ruma da Praça da República. Lá nos dispersaremos, cada qual poderá voltar à sua casa... Para isso teremos algumas horas. O essencial (prestem a maior atenção!) é que quando o sino da matriz começar a dar as doze badaladas do meio-dia, haja o que houver, todos devem encaminhar-se para o coreto da praça, sentar-se nos bancos em silêncio e ficar à minha espera.
- E que é que você vai fazer? - quer saber João Paz.
- Vou primeiro à minha casa buscar uns papéis importantes... Depois me dirigirei à residência do prefeito para lhe entregar um ultimato verbal... ou nos enterram dentro do prazo máximo de vinte e quatro horas ou nós ficaremos apodrecendo no coreto, o que será para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higiênico, estético... e moral, naturalmente."

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Clarissa Erico Verissimo

Descobri que uma das vantagens de escrever neste blog é: se me queixar que me falta um livro, que queria encontrar um livro que não encontro em lado nenhum ele acaba por aparecer caído do céu.
Aqui há uns tempos queixei-me que nunca tinha encontrado os livros "Clarissa" e "Caminhos Cruzados" do Erico Veríssimo e depois de alguns dias o Marcelo fez-me chegar às mãos, não apenas estes dois livros como ainda:"Olhai os Lirios do Campo", a trilogia "O Tempo e o Vento", "O Senhor Embaixador" e "O Prisioneiro" - todos do mesmo autor.
Por isso Marcelo muito, mas mesmo muito obrigado!!!!!!!!
Publicado em 1933 Clarissa é o romance de estreia deste autor brasileiro nele conhecemos Clarissa que virá a estar presente em muitos dos romances da primeira fase da carreira de Veríssimo.

Natural de Jacarécanga Clarissa, uma jovem curiosa de treze anos, estuda em Porto Alegre onde vive na pensão de uma tia. Pouco dada aos estudos é constantemente vigiada e repreendida pela tia o que faz aumentar as saudades da liberdade do campo de que usufruía na fazenda de seus pais. Entretêm-se a observar as pessoas que giram à sua volta: os hóspedes da tia e quem vive na vizinhança. A traidora esposa de Barata, Ondina, Amaro, o músico triste e contemplativo, o distraído major, a conservadora tia e o seu marido que se encontra desempregado, a família rica que mora ao lado e a viúva que tem um filho mutilado, Tonico, que ficou sem as duas pernas em consequência de um acidente de viação, que sonha em marchar com exércitos e que acaba por morrer são algumas das personagens que lhe chamam a atenção. Clarissa acaba por voltar para casa dos pais deixando Amaro ainda mais triste pois estava secretamente apaixonado pela jovem, inocente e bela moça.
Podemos ver aqui um contraponto entre Clarissa ("claridade", "luz") e Amaro ("amargo").

o gosto pelo rigor da descrição, pela minúcia da fotografia, manifestasse como característica que o acompanharia sempre. Sua fidelidade à vida tal como ela é em toda a multiplicidade de variados aspectos, inclusive aqueles que se apresentam sórdidos e desagradáveis.

Trata-se de uma composição realista que assegura a veracidade do cenário retratado e dos seres que nele se movimentam. O romancista não se impõe às personagens; ao contrário, prefere ver o mundo através das personagens; e isso as faz viver como gente de carne e osso.

O universo de Clarissa, dependendo do ângulo em que observamos, pode ser muito limitado ou infinitamente amplo em sugestões e promessas. Na verdade, está circunscrito no estreito território da pensão da Tia Zina e sua população pequeno-burguesa consumida na luta inglória pelo ganha-pão de cada dia. Entretanto, a presença de Clarissa amplia pouco a pouco a significação desse cenário, porque a narrativa se organiza em torno de seu desdobramento psicológico, e o que de fato interessa é a sua descoberta em relação aos seres e às coisas que a cercam. Imperceptivelmente, o autor se dissimula, quase escondendo-se num segundo plano, e deixa que a revelação do mundo observado se apresente através das surpresas, dúvidas e curiosidades que preenchem a consciência de Clarissa. Assim, fica aberto um caminho que permite a passagem da simples fotografia para o romance psicológico, de maneira que o leitor já não perceba a história como coisa "armada", sentindo-a antes como parte integrante de uma experiência vivida.

A "naturalidade" do relato guarda esse atributo indispensável à grande ficção de onde nasce o verdadeiro mundo das personagens: a possibilidade de existir na realidade. Este segredo do romancista é a prova da sua sensibilidade diante do assunto extremamente complexo que escolheu - o mundo banal e opaco de todas as horas, redescoberto através da perspectiva (meio lógica, meio fantástica) da adolescência:

"...sobre uma coluna de madeira escura, a um canto da sala rebrilha o aquário. Pirolito está agitado. Será que a luz elétrica o assusta? Clarissa se aproxima do vaso de cristal. Agora nota que a água parece toda cheia de rebrilhos. A janela, as lâmpadas elétricas, os móveis da sala, tudo se reflete no aquário."

Ultrapassando o perigo, Érico Veríssimo preferiu que Clarissa, ela própria, o conduzisse entre coisas que vão aparecendo no fluxo da descoberta. O mundo juvenil, povoado de sonhos e fantasias, possuía uma peculiaridade inconfundível: estava todo ele "refletido no aquário", mudando o desenho a todo momento, metade de cada coisa revelada e a outra metade ainda interrogável na sombra. A realidade teria de ser captada no contorno do aquário, respeitando o mistério do universo de Clarissa que só a ela pertence. Se trata, basicamente, de um problema de linguagem, isto é, encontrar a linguagem que narre a consciência fantasiosa de Clarissa e, ao mesmo tempo, preserve a sua identidade, sem se confundir com a perspectiva adulta e racional do seu criador.

Clarissa é a história límpida e serena de um ano de vida de uma criança que se faz mulher. "Na monotonia cotidiana da pensão de sua tia Zina", escreve um dos críticos que melhor compreenderam o sentido deste romance, "ela é um raio de sol, uma mancha rutilante de alegria. É a poesia da vida no meio do realismo mesquinho. Nela, tudo encanta porque tem a inocência que a angeliza, e o sabor das coisas naturais que ainda não sofreram as deformações da sociedade... Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia. Menina e moça - olhos abertos para o mistério sa vida. alma que amanhece."
Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia enquanto estuda em Porto Alegre. Ela é uma jovem curiosa, descobrindo o mundo, a adolescência e a vida. Não gosta muito de escola, sente saudades da fazenda em sua cidade natal, Jacarecanga e observa as pessoas que moram na pensão da tia e na vizinhança: Ondina, a infiel esposa de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o distraído major; a conservadora tia e seu desempregado marido; a família rica que mora ao lado e a viúva com o filho mutilado. Este último, Tonico, perdeu as duas pernas num acidente de bonde e sonha em marchar com exércitos. Frágil, acaba morrendo. Quanto a Amaro, este sempre contempla Clarissa, sua juventude, sua inocência, sua beleza aflorando da menina que vai se tornando moça. Clarissa faz 14 anos (e ganha permissão para usar salto alto) e passa na escola. O livro acaba com Clarissa voltando para Jacarecanga (e encontrar o primo Vasco) enquanto Amaro fica triste na pensão a pensar nela. O primeiro romance de Erico Verissimo, Clarissa apresenta um panorama da vida de uma jovem na Porto Alegre de 1932 e começa a história que se estenderá por seus romances da primeira fase.
O romance sempre conta uma história de ficção que seu autor criou a partir das angústias, insatisfações ou alegrias que a realidade lhe ofereceu. As personagens inventadas serão projeções da sua experiência no mundo real transposto para a ficção. Assim, o romancista será bom ou mau romancista justamente na medida em que a sua capacidade de expressão nos faça aceitar como verdadeiro esse mundo que é de pura fantasia, quando as pessoas fictícias nos convençam e emocionem tanto quanto as pessoas "reais". Pois essa é a qualidade maior da Clarissa de Erico Verissimo e também, creio eu, o segredo da comunicabilidade que tenha assegurado o sucesso da sua história junto ao público nos últimos quarenta anos. Clarissa se impõe como pessoa viva, movimenta-se com ritmo e luminosidade, despertando a simpatia do leitor, que passa a dialogar com ela na identificação ou na recordação. No primeiro caso estarão os leitores da sua idade, adolescentes por volta dos quatorze anos, que subitamente se vêem refletidos na complexa psicologia duma menina onde o próprio desenrolar da vida é uma constante descoberta. Os outros somos nós, leitores adultos, mais sérios e exigentes em relação à literatura, que, não obstante, tranformamos a exigência em adesão quando Clarissa representa aquele mundo que já foi nosso, ao qual desejaríamos voltar, repetindo-o mais uma vez.
"Clarissa vai andando aérea, sem esforço, leve, como se tivesse asas. As abas do chapéu bamboleiam, moles, põem-lhe no rosto iluminado uma sombra mansa que lhe vai até o meio do nariz, dividindo-lhe o rosto em duas zonas distintas. Dentro da zona sombria os olhos fulgem. Dentro da zona luminosa os lábios ainda ficam mais encarnados. Clarissa não responde, não ouve, não atende. Anda longe, numa viagem maravilhosa."
Neste livro de 1933, primeiro romance de Erico Verissimo, o gosto pelo rigor da descrição pela minúscia da fotografia, manifesta, como característica que o acompanhará sempre, sua fidelidade à vida tal como ela é em toda a multiplicidade de variados aspectos, inclusive aqueles que se apresentam sórdidos e desagradáveis. Trata-se de uma posição realista que assegura a veracidade do cenário retratado e dos seres que nele se movimentam. O romancista não se impõe às personagens; e isso as faz viver como gente de carne e osso. O universo de Clarissa, dependendo do ângulo em que observemos, pode ser muito limitado ou infinitamente amplo em sugestões e promessas. Na verdade, está circunscrito ao estreito território da pensão de tia Zina e sua população pequeno-burguesa consumida na luta inglória pelo ganha-pão de cada dia. Entretanto, a presença de Clarissa amplia pouco a pouco a significação desse cenário, porque a narrativa se organiza em torno ao seu desdobramento psicológico, e o que de fato interessa é a sua descoberta em relação aos seres e às coisas que a cercam. Imperceptivelmente, o autor se dissimula, quase escondendo-se num segundo plano, e deixa que a revelação do mundo observado se apresente através das surpresas, dúvidas e curiosidades que preenchem a consciência de Clarissa. Assim, fica aberto um caminho que permite a passagem da simples fotografia para o romance psicológico, de maneira que o leitor já não perceba a história como coisa "armada", sentindo-a antes como parte integrante de uma experiência vivida. A "naturalidade" do relato guarda esse atributo indispensável à grande ficção de onde nasce o verdadeiro mundo das personagens: a possibilidade de, existindo como fantasia, também poder ter existido na realidade. Este segredo do romancista é a prova da sua sensibilidade diante do assunto extremamente complexo que escolheu - o nosso mundo banal e opaco de todas as horas, redescobre através da perspectiva (meio lógica, meio fantástica) da adolescência:
"... sobre uma coluna de madeira escura, a um canto da sala rebrilha o aquário. Pirolito está agitado. Será que luz elétrica o assusta? Clarissa se aproxima do vaso de cristal. Agora nota que a água parece toda cheia de rebrilhos. A janela, as lâmpadas elétricas, os móveis de sala, tudo se reflete no aquário."
Tradicionalmente, o romance da adolescência tem sido um desafio para muitos escritores, porque aí torna-se impossível aceitar personagens que falam a mesma língua do autor, pensam e agem como adultos e, irremediavelmente, situam-se fora da nossa capacidade de compreensão. Ultrapassando o perigo, Erico Verissimo preferiu que Clarissa, ela própria, o conduzisse entre as coisas que vão aparecendo no fluxo da descoberta. O mundo juvenil, povoado de sonhos e fantasias, possuía uma peculiaridade inconfudível: estava todo ele "refletido no aquário", mudando o desenho a todo momento, metade de cada coisa revelada e a outra metade ainda interrogável na sombra. A realidade teria de ser capitada, pois, basicamente, de um problema de linguagem, isto é, encontrar a linguagem que narrasse a consciência fantasiosa de Clarissa e, ao mesmo tempo, preservasse a sua identidade, sem se confundir com a perspectiva adulta e racional do ser criador. Conheço poucos que, como ele, tenham alcaçado sucesso nesse empreendimento, ao abordarem personagens adolescentes - um Ferenc Molnár, um Szimond Móricz, um J.D. Salinger, um Otávio de Faria.
Fiel à estrutura da narrativa psicológica e à natureza da personagem, Erico Verissimo optou por um estilo pictórico, no qual as descrições valorizam sobremaneira a visualidade. Tudo se oferece mediante uma infinita gama de variações cromátidas, tonalidades e reflexos que buscam estabelecer, na órbita do cenário físico, o espelho das filigranas psicológicas que compõem a imaginação juvenil. Daí a preferência do romancista, neste livro, pelo adjetivo, pelas imagens que realçam a natureza e integram uma visão caleidoscópica, iluminando o espaço circundante. Justamente sob esse aspecto, o autor de Clarissa evidencia sua vinculação com o panorama literário da época. Se a linguagem pictórica, o estilo cromático, tornam-se um recurso inteligente na elaboração da personagem, não é menos verdade que já pertenciam a uma longa tradição da literatura sulina, que iria alcançar um de seus pontos altos naqueles dias da publicação de Clarissa. Trata-se da tradição simbolista, na qual germinaram as obras de Eduardo Guimaraens e Alceu Wamosy, cujas raízes profundas se estendem por toda a produção literária do início do século para alcançarem, por volta de 1930, as melhores manifestações do Modernismo no Rio Grande do Sul. No ano em que surgiu Clarissa, 1933, Augusto Meyer já publicara dois livros que mantêm e renovam a tradição simbolista, onde a linguagem poética capta a magia da paisagem através da cor, nos jogos de sombra e luz: Poemas de Bilu e Giraluz. Estava em pleno desenvolvimento, também, a poesia de Mário Quintana, que um pouco mais tarde, apresentaria Rua dos cata-ventos. Creio que na linguagem de Clarissa encontra-se muito dessa herança simbolista presente no ambiente da época, os mais profundos estados de ânimo entregando-se na pura visualidade, como nos versos de Augusto Meyer:
"Amo tudo o que é móvel e flutuante
porque os meus olhos não se fecham sobre a imagem e
as minhas mãos tem o orgulho das corolas vazias..."
O trabalho criador de Erico Verissimo exerceu-se na reelaboração dessa vertente estilística, transferindo uma linguagem até aí mais própria à poesia para a prosa descritiva de Clarissa. É verdade que, em romances posteriores, nota-se uma sensível evolução, pois, na medida em que ele abandona a simples pintura de caracteres para investir na área do romance social, a partir de Caminhos Cruzados, o estilo passa por um processo de depuração, tornando-se mais seco e agressivo, procurando a objetividade e atenuando bastante a preferência inicial pelos aspectos simplismente poéticos da existência. No caso de Clarissa, entretanto, a expressão apoiada no adjetivo e na seqüência de imagens visuais garante o clima encantatório da narrativa, aliás o único em que poderia nascer com verossimilhança a história de uma adolescente de quatorze anos ainda mergulhada no deslumbramento do descobrir-se. O próprio Erico viria a considerar, mais tarde, o seu livro como "uma coleção de aquarelas e poemetos em prosa em torno da vida cotidiana".
No entanto, também o lado obscuro e amargo da vida ganha lugar no contexto de Clarissa. Está refletido na personagem de Amaro, o músico frustrado, já na casa dos quarenta anos, que contempla na vitalidade física e espiritual de Clarissa tudo aquilo que a vida lhe negou: segurança, alegria, imaginação - o sentimento de participar do mundo que se constrói a cada instante. Mas é tarde para voltar atrás; o tecido do tempo passado não se recompõe; e Amaro ama Clarissa à sua maneira, transferindo para ela a imagem da mulher que sempre idealizara e sabe que nunca chegará a possuir. Em certa altura, essa personagem, marcada pelo curso dos dias opacos e inglórios que lhe couberam, expressa a melancolia diante do futuro que não está mais ao seu alcance:
"O raio de sol é de um outro mundo. Clarissa, se eu pudesse falar, se tu pudesses entender. Eu te diria que nunca desejasses que o tempo passasse. Eu te pediria que fizesses durar mais e mais esse momento milagroso".
Ao opor entre si as personagens de Clarissa e Amaro, como se se tratasse dos dois pólos da existência, a luz e a sombra, o passado e o futuro, este romance permite vislumbrar uma preocupação que, alimentado por Erico Verissimo em livros posteriores, virá a ser um de seus temas recorrentes - o tempo; o comportamento dos seres perante o decurso do tempo, que é vida e morte, descoberta e esquecimento. Tanto é assim que ele irá acompanhar o destino de Clarissa e de muitos de seus companheiros, os quais ressugem ao longo da sua obra em Música ao Longe, Um Lugar ao Sol e Saga. Por outro lado, esta preocupação com a dialética da temporalidade, reelaborada e aprofundada de livro para livro, resultará na construção monumental de O Tempo e o Vento, assumindo as proporções de verdadeira parábola sobre a história e o destino do homem, iniciada em 1949 com a publicação de O Continente.
Parece-me ainda merecer registro outra característica que se tornará, mais tarde, verdadeira marca de identidade do romancista: a preferência (ou quase diria, a simpatia) pelas personagen femininas. Se observarmos bem, neste romance a "parte forte" da vida está representada muito mais nas mulheres (autoritárias como tia Zina, promessas futuras como Clarissa) do que nos homens, que, em geral, são indolentes, frustrados ou insensíveis. A releitura de Clarissa, hoje, sugere a indagação sobre se não residiria aí a matriz, ainda informe, das melhores criações do contador de histórias - a Fernanda de Caminhos Cruzados, a Olívia de Olhai os Lírios do Campo, a Ana Terra e a Bibiana de O Continente.
Resta dizer que o início da década de 1930 abriu uma fase extraordinariamente fértil para a prosa de ficção no Brasil contemporâneo. Quase simultaneamente surgiram o romance social de Jorge Amado, o conto de João Alphonsus, o "ciclo da cana-de-açucar" de José Lins do Rego, a poderosa obra de sondagem psicológica de Graciliano Ramos. No caudal dessa renovação de nossa literatura, Clarissa marcava o início de uma atividade criadora na qual Erico Verissimo elevaria o romance sulino ao seu ponto mais alto. Quarenta anos passados, o calor humano que se irradia desse pequeno livro mantém toda a vitalidade. E Clarissa continua sua trajetória.
retirado da página de Érico Veríssimo em
:
http://ufpel.edu.br/~felipezs/html/erico.html

Mais uma vez OBRIGADO Marcelo!!!!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Resto é Silêncio Erico Verissimo

Dizia de manhã o Mário que em se tratando de literatura brasileira ninguém lhe fala de Erico Veríssimo. Para lhe fazer a vontade vou escrever sobre o meu livro preferido do Sr. Verissimo - e um dos dois únicos que li dele... - "O resto é silêncio".
Já lá vai algum tempo desde que o li mas a ver se me lembro do essencial.
(e com a ajuda de um site dedicado ao escritor)...



Num anoitecer de Sexta-Feira Santa, uma rapariga desconhecida atirou-se do décimo andar dum edifício em Porto Alegre. Sete pessoas pelo menos a viram cair: um desembargador aposentado... um homem de negócios à beira da falência... um romancista... um ex-deputado e advogado próspero... um pequeno vendedor de jornais... um noctívago... e uma mulher que tinha um problema de consciência...
O autor apresenta essas personagens antes do fato, descreve a reação de cada uma diante do suicídio, e depois nos conta o que foi a vida desse grupo durante as vinte e oito horas que se seguiram. Novos tipos e problemas surgem à medida que a narrativa avança, e o resultado final é uma espécie de grande quadro mural representativo da hora que estamos vivendo.
Voltando um pouco à técnica de Caminhos Cruzados, mas apresentando as personagens e a história dum ângulo novo, Erico Verissimo nos dá em O Resto é Silêncio talvez o seu romance mais denso e maduro.
Numa crítica na revista "The Inter-American", escreveu Harriet de Onís:
"Eis um romance magistral, de valor inestimável para todos quanto desejam conhecer a vida e a literatura do Brasil. Ao estilo brilhante e ao espiríto que caracterizavam suas obras anteriores, em O Resto é Silêncio Verissimo acresenta a maior qualidade do romancista: o poder de criar personagens vivas. Os retratos que dela nos pinta são de tal maneira completos, tão dimencionais, que elas existem em sua inteireza não só tais como aparecem ao mundo exterior, como também da maneira que elas se imaginam ou desejariam ser."
Este romance já foi traduzido para várias línguas, tendo sido editado nos Estados Unidos, na Inglaterra, em Portugal, na Bélgica, na Itália e na Argentina. Despertando assim interesse universal, O Resto é Silêncio firma-se como uma das melhores obras da moderna literatura brasileira.

Num anoitecer de outono do ano de mil novecentos e quarenta e um, estando eu a conversar com um amigo numa das calçadas da Praça Senador Florêncio, no coração de Porto Alegre - vi precipitar-se, de um dos andares médios de um edifício fronteiro, uma coisa com forma humana que foi cair no meio da rua. Quando corri com outros curiosos na direção do "objeto", verifiquei tratar-se do corpo duma rapariga loura, alva e franzina, que agora ali estava, estendida sobre as pedras do pavimento, com os olhos abertos e vidrados, e uma estranha expressão de serenidade no rosto palidíssimo. Quando o carro do Pronto Socorro chegou e o médico de plantão se inclinou sobre a criatura, ela já estava morta. Suas feições me eram completamente desconhecidas. Não tive, porém , coragem de estudá-las demoradamente, pois me afastei dali profundamente perturbado, levando comigo uma vaga sensação de culpa ou, melhor, de responsabilidade.
Um ano depois escrevi um romance cujo ponto de partida era o caso da moça loura em torno do qual a opinião pública se dividia, pois embora a polícia afirmava tratar-se dum suicídio, havia quem insistisse em que a desconhecida tinha sido assassinada.
Na minha história - que é como Caminhos Cruzados uma espécie de corte transversal numa sociedade - sete pessoal presenciam a queda da rapariga, que assim é vista de sete ângulos diferentes. O artifício me pareceu rico de possibilidades. Num romance dessa natureza eu poderia, entre outras coisas, fazer uma série de experiências com o tempo da narrativa, mostrar a falibilidade da prova testemunhal, e sugerir, enfim, que, em última análise, nós os seres humanos sabemos muito pouco uns dos outros.
A suicida (ou assassinada) da vida real deixou de me interessar desde o momento em que, com o nome de Joana Karewska, passou a ser personagem de meu novo romance.
O Resto é Silêncio talvez seja o princípio duma nova fase na carreira literária do autor, o qual, desse livro para diante, passou a trabalhar a forma com maior cuidado, procurando evitar as facilidades e simplificações que haviam tornado tão frouxo e desigual o estilo dos romances anteriores.
Quanto às personagens é natural que aqui e ali ainda se notem traços de caricatura, principalmente no retrato do Desembargador Lustosa. E se por um lado talvez falte a este romance a vivacidade e espontaneidade de Caminhos Cruzados, por outro suas personagens me parece terem sido pintadas com um mais intenso fino senso de volume e matiz.
Tônio Santiago é evidentemente um auto-retrato, mas um auto-retrato estilizado, sem nenhum rigor verista. Quando escrevi este romance, meus dois filhos - Clarissa e Luís Fernando - iinham respectivamente sete e seis anos. Apresentei-os na história como tendo vinte e dezoito anos, e achei divertido profetizar-lhes o temperamento, as tendências, os gostos e as preocupações. Rita, portanto, é uma filha postiça, o que não impede que até certo ponto ela guarde uma certa parecença, se não física pelo menos psicológica, com a Clarissa de minha primeira novela.
Já nesta altura de sua carreira, o autor pode afirmar sem receio de rrar que tipos como o de Marcelo Barreiro, o católico quase místico, não são positivamente o seu forte. O contrário, porém, se passa com o velho Quim Barreiro. Esse primo não mui remoto do General Chicuta Campolargo de Um Lugar ao Sol e daquele Coronel Jango Jorge que aparece rapidamente numa cena de Saga, me parece uma personagem bem realizada. Dum modo geral se poderá dizer que ao pôr de pé Quim Barreiro, ao fazê-lo falar, mover-se, lembrar-se, desejar e sentir, o autor estava como que a exercitar-se para fazer frente à vasta galeria de O Tempo e o Vento.
Tenho uma simpatia especial pela pessoa de Juca, amigo fiel de Norival. E confesso não ter tido a menor má vontade par com o próprio Petra, o negociante sem escrúpulos.
Aristides Barreiro, advogado e politiqueiro desonesto, de acordo com um velho plano, devia aparecer em O Tempo e o Vento.
Aurora e Aurélio, filhos de Aristides, me são indiferentes, e creio que isso fica visível nas páginas do livro. Verônica, mãe de ambos, também me deixa frio.
Tenho, porém, profunda simpatia e o maior interesse por Marina. Quanto ao seu marido, o compositor Bernardo Rezende, julgo tê-lo tratado com uma condescendência tocada de sarcasmo.
Até hoje não sei exatamente o que penso de Roberto, o repórter, e de Tilda, namorada de "meu filho" Gil. Simpatizo vagamente com o Chicharro, e gosto de Sete Meis - personagem cuja gênese está explicada num artigo contido no primeiro volume desta coleção.
Que faltará a O Resto é Silêncio para que seja um romance realmente bom? Falta-lhe principalmente calor, carga emocional. Relendo-o, concluo também que devia ter dado muita mais espaço e tempo ao inquérito particular de Tônio Santiago em torno da morte de Joana Karewska. Eu devia ter usado nesse trecho do livro a técnica do conto policial, pois isso teria dado à história mais encanto e mistério, bem como um maior interesse novelesco.
Não será demais repetir que esse processo de histórias e vidas cruzadas, com sua ausência de personagens centrais, dota o livro duma superfície demasiadamente larga, com prejuízo da profundidade. Mal começa o leitor a formalizar-se com uma personagem ou com um grupo, e já o autor salta para outro capítulo e outras gentes.
para que se tenha uma idéia de como ao tempo que escrevi O Resto é Silêncio eu já estava sendo solicitado por outros temas, basta prestar-se atenção às reflexões de Tônio Santiago nas últimas páginas do volume, quando, no teatro, ele contempla a platéia e pensa nos primeiros povoadores do Rio Grande, nas suas lutas com os índios, as feras e os castelhanos; na solidão das fazendas e ranchos perdidos nos descampados; nas mulheres de olhos tristes a esperarem os maridos que tinham ido para a guerra ou para a áspera faina do campo; nos invernos de minuano, nas madrugadas de geada, nas soalheiras de verão e na glória das primaveras; nas lendas que iam surgindo nos matos, nas canhadas, nos socavões da serra, nos aldeamentos dos índios e nas missões; nas povoaçõesque surgiram e nas antigas que cresciam, tranformando-se em cidades; nos imigrantes europeus e nas povoações que eles criaram e assim por diante, até aquele momento ali no teatro, onde, numa espécie de milagrosa soma, se via aquela rica diversidade de tipos humanos, nomes e almas.
Não seria tudo isso uma espécie de trailer de O Tempo e o Vento?
Extraído do livro O Resto é Silêncio - 14a. edição

Música ao Longe - Um Lugar ao Sol - Erico Veríssimo



Quando se fala em literatura brasileira os primeiros nomes que me dizem são (e por ordem):
- Jorge Amado;
- Paulo Coelho (Blearghh!!!);
- Zélia Gattai;
- João Ubaldo Ribeiro;
- Machado de Assis;

O que me espanta é que um nome raramente aparece nestas conversas…
Anos atrás, quando não tinha dinheiro para comprar livros (e mesmo que tivesse na altura não havia uma verdadeira livraria na terrinha), frequentava assiduamente a biblioteca (da fundação C. Gulbenkian – abençoada seja) e numa dessas visitas descobri um livro (e por arrastamento um autor) “Música ao Longe” de Erico Veríssimo.
Foi, garanto uma paixão imediata. Em pouco mais de um mês fui alternando as obras dele com outros autores mas para além desse li ainda: “Incidente em Antares”, “Olhai os Lírios do Campo”, “O Resto é Silêncio” e num momento de pura sorte encontrei numa das pseudolivrarias lá da terra “Um Lugar ao Sol”.

E é sobre estes dois livros que vos quero falar (o primeiro que li dele “Música ao Longe” e o primeiro que comprei “Um lugar ao Sol”.













Fazem os dois parte de uma série de livros iniciada pelo autor em 1933 com o romance "Clarissa" (que infelizmente nunca consegui encontrar) continuada em ”Caminhos Cruzados” (1935) (também nunca encontrei) seguida de “Música ao Longe” (1935) e concluída com “Um Lugar ao Sol” (1936). São histórias, romances independentes que se lêem sem ser indispensável conhecer os demais mas que tem em comum os personagens principais (Clarissa e Vasco) e que os acompanha ao longo dos anos.

Confesso que quando li a introdução do autor em “Música ao Longe” fiquei um pouco preocupado (“Esta história foi escrita em quinze ou vinte dias, especialmente para concorrer ao Prémio de Romance Machado de Assis, instituído em 1934 pela Cia. Editora Nacional de São Paulo.
Não farei nenhum rodeio para confessar que considero Música ao Longe um livro medíocre, embora seu tema pudesse ter comportado uma certa grandiosidade, caso fosse bem tratado (…)”
, mas o livro conquistou-me e por consequência, o autor (como já disse).

«Este romance, que mereceu em 1935 o "Prémio Machado de Assis", é a história de Clarissa em sua cidade do interior. Lemos as páginas do diário dessa moça e através de suas impressões vamos conhecendo as outras personagens. João de Deus, estancieiro arruinado. Jovino e Amâncio, ambos em dificuldades financeiras, dominados pelo vício. D. Zezé, uma velhinha que vive voltada para o passado. Cleonice e Pio, noivos há doze anos. Seu Leocádio, o velhote dos mistérios, dono do único telescópio que existe em Jacarecanga, charadista, poeta, músico e entendido em almanaques. Outras personagens desfilam, destacando-se entre elas Vasco, rapaz de aspecto selvagem, primo de Clarissa.
O que vemos nessas páginas é a vida duma cidade do interior do Rio Grande desfilar em câmara lenta diante de nossos olhos.
A história é escrita com simplicidade de linguagem e de construção. Faz parte da série de romances onde vemos Clarissa, Caminhos Cruzados e Um Lugar ao Sol.
Música ao Longe ocupa um lugar definitivo na literatura brasileira e é uma dessas obras inteiramente realizadas, que tanto são lidas pelo seu valor intrínseco como pelo justo renome que possuem.»
Comentário extraído do livro Música ao Longe (contracapa)

Já um lugar ao sol é a continuação deste romance começando por onde o anterior tinha terminado é talvez mais duro (se tal é possível) mas há sempre presente uma réstia de esperança.

«Vasco caminha pela vida numa incansável e persistente busca: de emprego, de amor, de dias melhores... Mas não importa. Já se habituou a viver em constante contradição. Busca as aventuras da boémia e descobre os prazeres de um viver regrado. Como será o amanhã? Não se sabe...
Há dificuldades imensas, mas é certo que também existe Clarissa, sua paixão, o elo que o prende à realidade. A vida ainda vale a pena!
Permanecer e lutar ou ganhar mundo com seu pai, num percurso solitário?
Erico Veríssimo consegue, neste livro contundente e actual, mostrar que, apesar dos pesares que marcam o destino inexorável do homem, todos nós temos direito a Um Lugar ao Sol. Neste livro, o escritor consegue elaborar de modo impecável um retrato vivo da complexidade do ser humano e das questões que o inquietam.
Reunindo personagens já conhecidas de suas obras anteriores, coloca-as a nu, com uma linguagem sincera e comovente, criando situações em que o quotidiano se impõe sempre, implacável.
Assim, à miséria e à violência que marcam o destino do homem, somam-se aspectos do mais profundo humanismo: a solidariedade irrestrita, a esperança de uma vida melhor, a amizade, a paixão.
Sempre crítico, o autor analisa a sociedade procurando compreendê-la de forma realista, isenta.
E as personagens, vivendo o presente intensamente, ao sabor dos acontecimentos, não se preocupam com o amanhã. É melhor "seguir ao acaso, como os barcos antigos, sem bússola nem porto certo, guiados apenas pelas estrelas".
Com uma temática actual e forte, o enredo envolve o leitor e leva-o a reflectir sobre o próprio destino, seus encantos e desencantos, sua impotência e pequenez frente à vida.»
Comentário extraído do livro Um Lugar ao Sol (capa e contracapa internas)


Estou a acabar de os reler pela enésima vez e aconselho-os a todos.